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Um inimigo em forma de uma ferida

São já consideradas um problema de saúde pública e são também, por cá e em vários outros países um pouco por todo o mundo, muito frequentes, confirma a Direção-Geral da Saúde, que avança alguns números: nos cuidados hospitalares, a prevalência média de úlceras de pressão é de cerca de 11,5%; nos serviços de Medicina sobe para 17,5%. Um problema que se associa ao sofrimento e à “diminuição da qualidade de vida dos doentes e dos seus cuidadores, podendo levar à morte”. Isto apesar de, refere ainda a mesma fonte, cerca de 95% destas lesões na pele e nos tecidos serem evitáveis.

Também conhecidas como escaras ou úlceras de decúbito são, no fundo, feridas que, como o próprio nome indica, acontecem devido à existência de uma pressão constante do corpo sobre uma determinada superfície, que pode ser uma cama, uma almofada, uma cadeira.

Apesar de serem mais frequentes nos idosos, de acordo com o Grupo Associativo de Investigação em Feridas (GAIF) podem também afetar bebés e crianças. Em comum, qualquer um destes grupos tem o tempo passado imobilizado, seja numa cama ou sentados numa cadeira, que vai criar a tal pressão referida anteriormente. Pressão essa que acaba por impedir que o sangue circule como devia, privando a pele de oxigénio, o que acaba por dar origem a uma ferida.

E há zonas onde é maior o risco de surgirem estas feridas, sobretudo porque nelas existem menos tecido e mais osso, exigindo, por isso, uma maior atenção por parte dos cuidadores. De acordo com a Estrutura de Missão da Rede Regional de Cuidados Continuados Integrados, a nuca, omoplatas, cotovelos, calcanhares e a região sacro coccígea, ou seja, o fundo da coluna, são as zonas de maior risco. A vigilância deve ser redobrada na orelha, costelas, ombro ou zona lateral do pé, sobretudo nos casos em que o doente se encontra deitado de lado.

Para quem cuida, a observação da pele tem que ser transformada numa rotina diária, acompanhada pelo questionar do doente sobre a existência de zonas de desconforto ou dor, que podem ser os primeiros sinais da existência destas feridas. E tudo começa, diz quem sabe, com uma mudança na cor da pele. Caso esta apareça avermelhada, sobretudo nas zonas consideradas de risco, há uma forma simples de perceber se a úlcera de pressão já está ou não formada. Basta, aqui, pressionar com o dedo durante alguns instantes. No caso de ficar branco, isso significa que não existe uma úlcera de pressão. Mas caso o tom vermelho persista, há que aliviar a pressão, o que se faz mudando o doente de posição. Aliás, aconselha-se mesmo a criação de uma espécie de horário, uma tabela com a frequência com que se deve mudar o doente de posição, o que pode ser necessário a cada 15 minutos ou apenas de duas em duas horas. Há também vários equipamentos destinados a proteger as partes do corpo mais vulneráveis, tais como colchões especialmente desenhados para o efeito ou almofadas anatómicas, que são vendidas em lojas da especialidade.

Se for também detetada a existência de pequenas bolhas ou feridas na pele, isso significa que a mudança de posição já não vai ser suficiente para resolver o problema. É preciso fazer mais.

Nestes casos, o tratamento inclui a limpeza da ferida e o uso de pensos, cremes ou gel, que ajudam a acelerar o processo de cicatrização. Não massajar as zonas ou esfregar vigorosamente são conselhos importantes a ter em conta, que incluem também a proteção da pele à exposição da humidade excessiva. Mas há casos em que a única forma de melhorar a situação é mesmo o recurso aos cuidados de saúde, podendo ser necessário a existência de uma intervenção cirúrgica.

Prevenção é palavra de ordem

Tal como em muitas outras situações, a prevenção desempenha também aqui um papel essencial, embora seja certo que nem os melhores cuidados são por vezes capazes de evitar o aparecimento das úlceras de pressão. Ainda assim, o enfoque é dado na prevenção, existindo mesmo um dia, em novembro, que internacionalmente se dedica a alertar sobre o tema (STOP Úlceras de Pressão).

Aliviar o estado nutricional de quem pode vir a sofrer destes problemas é uma forma de os prevenir, que passa por verificar se existe ou não carência de nutrientes ou vitaminas. Um estudo recente, realizado pela Faculdade de Ciências da Nutrição e da Alimentação, confirma que um em cada quatro idosos está desnutrido ou em risco de desnutrição, situação que a medicina já comprovou estar associada ao aparecimento de úlceras de pressão. O que significa que uma nutrição adequada é um dos elementos essenciais não só para a prevenção, mas também para a regeneração dos tecidos e para o processo de cicatrização. Ao lado da nutrição está uma ingestão correta de líquidos, que ajuda a manter uma pele mais saudável.

Pele cujo cuidado é também essencial para evitar o aparecimento deste tipo de problemas. Aqui, na altura do banho, que não deve ser diário, para não secar ainda mais a pele, deve preferir-se o uso de uma esponja macia ou de um pano, eliminando de todo uma escovagem agressiva. A pele deve ser protegida, diariamente, com recurso a cremes hidratantes, redobrando-se ainda os cuidados com o excesso de humidade, sobretudo na zona das pregas (por exemplo, nas virilhas). No que diz respeito ao vestuário, há que evitar roupa com demasiados botões, costuras mais grossas ou fechos que podem pressionar a pele e causar lesões, assim como preferir roupas mais largas.

Deixar de fumar é outro dos conselhos, assim como tentar, embora nem sempre seja fácil, manter alguma atividade física, uma vez que uma mobilidade limitada é também um dos fatores de risco para o aparecimento das úlceras de pressão. Com a ajuda de um especialista é possível criar um programa de exercício à medida das possibilidades de cada doente, capaz de ajudar a um aumento da circulação do sangue no organismo, a estimular o apetite e a fortalecer o corpo.

 

 

 

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