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Ser cuidador: a importância do lado emocional

 

Ser cuidador é uma crescente preocupação, dada a importância do seu papel social, da função de solidariedade, do trabalho de cuidar. Em alguns países no mundo esta consciencialização já é evidente, em Portugal, já começamos a apercebemos-mos desta importância e estamos a fazer o nosso caminho.

Os cuidadores, pela pressão emocional e o desgaste físico a que estão sujeitos, constituem um grupo de risco, vulnerável à perturbação afetiva e relacional, à desorganização pessoal, familiar e social, à doença física e mesmo à doença psiquiátrica e outra sintomatologia orgânica e/ou manifestação psicossomática.

Tais problemas constituem problemas complexos que atingem os cuidadores no seu todo, na sua individualidade, na forma como se relacionam com os outros e interagem com os diferentes contextos. De tal modo, que o seu mal-estar reflete-se nos que deles dependem, assim como em diversas áreas da sua vida: familiar, social, profissional, financeira, física e emocional. O mais preocupante é que, na grande maioria dos casos, os cuidadores informais só recebem apoio quando eles próprios têm a iniciativa de o solicitar, ou quando o seu mal-estar se torna deveras visível, após desgastante confronto com certas barreiras socioculturais, político-económicas e pessoais.

 

Principais dificuldades sentidas pelos cuidadores

Cuidar de alguém que, repentina ou progressivamente, fica doente ou debilitado, incapaz de realizar as tarefas que sempre desempenhou com total autonomia e independência, envolve um grande desafio pessoal, mas também acarreta algumas dificuldades sentidas por parte de quem cuida, nomeadamente:

  • Financeiras;
  • Ajudas técnicas;
  • Apoio por parte dos profissionais da saúde;
  • Protecção, assistência e apoio social;
  • Apoio por parte da comunidade;
  • Tempo de descanso;
  • Tempo para convívio e lazer;
  • Acesso a formação para um melhor cuidar;
  • Articulação entre entidades e serviços.

 

O lado emocional do cuidador

É normal ter todos esses sentimentos. Não somos perfeitos e temos momentos menos bons, sem que isso signifique que somos más pessoas ou maus profissionais:

  • Ambivalência: a dicotomia entre querer fazer o que faz e no segundo seguinte já não querer. Permita-se ter estes sentimentos e acredite que não vão durar parar sempre;
  • Raiva, irritação e frustração: é normal sentir-se desta forma quando está à beira de um burnout – um verdadeiro esgotamento e nem sempre conseguir evitar sentir-se assim. Perdoe-se e aceite esses momentos, encontrando formas construtivas de se exprimir e libertar o que sente;
  • Ansiedade: sentir que as coisas estão fora de controlo é normal. Mas o que pode mesmo controlar é a forma como reage a esses sentimentos: pare um pouco, respire fundo, tire uns minutos só para si;
  • Aborrecimento: acontece principalmente com tarefas rotineiras e dias que parecem sempre iguais. Experimente tirar uns dias de férias, ou, caso não possa, ter alguns minutos para fazer algo de que goste muito, como dar um passeio, fazer uma caminhada, ouvir música, ler um livro, ir ao cinema;
  • Tristeza: por vezes despoletada por um sentimento de incapacidade ou impossibilidade de fazer alguma coisa para mudar a situação da pessoa que está ao seu cuidado. Para não chegar a um estado depressivo, procure ajuda médica;
  • Vergonha: principalmente se a pessoa de quem cuida profere impropérios em público ou se recusa a deixar fazer a higiene pessoal, fazendo com que emita maus odores corporais. Não é o único. É mais fácil ficar em casa nestes momentos e pedir que sejam as outras pessoas, amigos e familiares, a visitá-lo;
  • Medo e culpa: de que algo aconteça e não saber o que fazer. Estabeleça planos para diversas situações: o que fazer, quem deve contactar, medicamentos a administrar em determinados momentos…;
  • Luto: ver a pessoa de quem cuidamos definhar a cada dia pode ser um luto precoce;
  • Impaciência: os dias são iguais, as dificuldades são sempre as mesmas, sente-se sempre sozinho nesta jornada… O conselho nestes casos já conhece: tirar um momento para si, abrandar o ritmo;
  • Inveja: de todas as pessoas que não passam pelo mesmo e têm uma vida aparentemente normal. Lembre-se que todos temos problemas e que um sorriso pode não sempre significar que está tudo bem. Mas é normal que se sinta assim, injustiçado. Contudo não deixe que isso bloqueie todas as coisas boas e positivas que tem na sua vida, porque as tem;
  • Falta de apreciação e solidão: ter alguém que dependa de nós é uma tarefa difícil e pode sentir-se desapreciado e sozinho nesta jornada. Não guarde esses sentimentos para si, fale com alguém, escreva num diário, participe num grupo no Facebook para falar com outras pessoas que passam pelo mesmo;
  • Ressentimento: por ter sido colocado numa posição que nunca desejou, mas à qual não pode escapar. Peça ajuda a outros familiares e dividam as tarefas. Ficará tudo menos difícil;
  • Cansaço: físico e mental. Ter alguém que depende de si pode ser verdadeiramente cansativo. Desde as horas dedicadas a outra pessoa, as dificuldades em dormir, as poucas horas de descanso… Se tem dificuldade em dormir pelo menos entre 6 a 7 horas por dia, consulte ajude médica, pois esse fator fará com que outros problemas possam surgir.

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